OASRN



Inaugurada em 1 de Julho de 1993, Dia Mundial da Arquitectura, a Sede da Rua D.Hugo foi o resultado de um longo e cuidado processo de obtenção de sede própria para a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos. O edifício da Sé(de) que abriga vestígios arqueológicos da fundação da cidade do Porto foi, em 1994, distinguido com o Prémio João de Almada.

A transformação da então Associação dos Arquitectos em Ordem Profissional marcou um crescimento significativo das suas responsabilidades e, também, da sua dimensão. O espaço da Rua D.Hugo tem-se revelado exíguo para as novas solicitações e pelo significativo interesse dos arquitectos nas questões relacionadas com a sua prática profissional.

Hoje, a perspectiva da mudança para as novas instalações de Álvares Cabral, não apaga a memória e a estima que os arquitectos têm pela sua Sé(de) da rua D.Hugo.

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1. Secretaria
2. Direcção


Durante longos anos sede do Sindicato e depois Secção Regional do Norte da Associação dos Arquitectos, o espaço da Rua da Restauração foi sendo pouco utilizado depois da mudança para a Sé(de) da Rua D.Hugo.

Após estes 10 anos de utilização pouco frequente, o espaço foi reorganizado por forma a funcionar como área de formação, permitindo uma programação continuada e eficaz na realização de acções de formação. Para além do arquivo este espaço servirá também para outras utilizações pontuais.


As duas casas de António José Gomes Samagaio na Rua Álvares Cabral.
Metamorfoses de espaços de intimidade num espaço da cidade.

Maria do Carmo Marques Pires


Na rua Álvares Cabral, um espaço em vias de classificação patrimonial, duas edificações com valor de habitação, dois microcosmos do habitar da burguesia portuense de finais de Oitocentos, integram um conjunto arquitectónico e um espaço secular e emblemático da cidade do Porto.

A abordagem de dois dos imóveis edificados num ambiente de transição de finais do século XIX/XX, justifica-se por integrarem um espaço vivo da História da cidade e do universo burguês, possuidor de uma estrutura física viva, uma imagem clara com identidade e plena de significações. Ainda hoje, pode o mais comum dos cidadãos participar neste lugar com carácter, materializando o tempo e as formas com valor arquitectónico e prestígio criadas para o homem. Inicialmente com uma vocação residencial, actualmente muitos desses espaços adaptam-se orgulhosa e espontaneamente a outras funções, numa resposta às novas exigências da cidade. Um espaço do nosso e de outros tempos, uma rua movimentada, um conjunto formal que espelha várias formas de habitar num raro ambiente do qual ainda se pode fazer uma atenta leitura e em que se sente um espaço primeiro a imbricar-se com o tempo e lugar presentes - uma estrutura física, uma imagem forte.

No lado ocidental do Campo de Stº Ovídio (actual praça da República), existiu uma quinta foreira ao Priorado e Colegiada de Cedofeita, a quinta de Stº Ovídio também conhecida como da Boavista, dos Figueiroas, dos Pamplonas ou dos Condes de Resende. A antiga casa apalaçada integrava-se num esquema - tipo da arquitectura sóbria e de acentuadas linhas horizontais edificada num antigo espaço pericentral da urbe Setecentista. Esta quinta de recreio e rendimento foi sacrificada à necessidade de transformar e fazer cidade, de rasgar espaços que permitissem uma melhor circulação e habitação em zonas mais arejadas. Assim, um único e amplo espaço aristocrático adaptado aos códigos sociais e vivenciais dos séculos XVIII/XIX, fraccionou-se e foi ocupado pela burguesia, um reflexo da mudança da conjuntura política, social, económica e cultural da cidade e do país de então. O espaço rural embrionário permaneceu e a sua leitura pode ainda ser feita a partir de indícios vários, os limites da quinta de meados de Setecentos (sacrificada à abertura da rua da Boavista e à ampliação do Campo de Stº Ovídio), são os limites actuais da rua e o seu traçado correspondeu ao anterior acesso principal ao jardim e à circulação no seu interior.

Quando o Conde de Resende, proprietário da quinta, iniciou a sua venda, entre 1897/1905, o terreno tinha sido dividido em 144 lotes de 6m de frente, (como se pode observar na planta de 1895), para edificações urbanas numa época de especulação fundiária. A venda dos lotes efectuar-se-ia a par da abertura da nova rua, de iniciativa particular, e cuja empreitada foi entregue ao mestre de obras José Joaquim Mendes. A necessidade da ligação do Campo da Regeneração à rua de Cedofeita e a abertura deste traçado viário tinha sido já manifestada desde 1837, mas só em 30 de Junho de 1898 a rua seria concluída.

A clientela que arrematou os lotes era constituída pela alta e média burguesia portuense, classe superior (grandes proprietários, negociantes, capitalistas, industriais, profissões liberais e alto funcionalismo público) e classe média (pequenos proprietários, lavradores, pequeno e médio comércio estabelecido, pequenos industriais, empregados e funcionários). Na sequência do crescimento populacional, da industrialização, da renovação urbanística e do consequente adensamento habitacional do centro antigo da cidade, a burguesia afastava-se e fixava-se em zonas mais arejadas, criando novos espaços residenciais de forte distinção social, em residências sólidas onde os ideais burgueses de privacidade, intimidade, segurança e estabilidade eram assegurados e resguardadas do espaço público.

Este traçado de 14 metros de largura, definido preferencialmente por residências unifamiliares e algumas oficinas de fachadas sóbrias, robustas que ritmam as frentes de rua, integrou, a partir de finais dos anos vinte, imóveis de habitação plurifamiliar de outras linguagens. Aqui encontram-se representados os construtores, os materiais e as tendências mais representativas do Porto do século XIX e XX.

As duas casas de António José de Gomes Samagaio inserem-se no alçado sul da rua, caracterizado por uma ocupação e escrita morfológica de fachadas diferente das dos outros alçados, num conjunto tipológico mais diversificado e mais heterogéneo, em lotes que se associaram e resultaram numa maior hierarquização e distinção do espaço edificado.

Gerente da fábrica de Fiação do Jacinto e proprietário, vindo de uma rua próxima, rua da Torrinha, António José Gomes Samagaio arrematou os lotes 51, 52 e 53, com a largura de 6m cada, no dia 30 de Novembro de 1898. Adquiria o direito a uma pena de água da Mina da Fonte e mandava edificar duas habitações de um andar geminadas por logradouro comum, em 6 de Abril de 1899, tendo a direcção de obra pertencido ao mestre de obras Manoel Alves Ferreira. Outros projectos requeridos por este proprietário ou pelo genro, obras de maior ou menor envergadura, também da responsabilidade de mestres de obras, modificariam aquelas que são as actuais edificações, designadamente, para adicionar andar na fachada posterior de uma das habitações (23 de Junho de 1909), para adicionar casota (3 de Outubro de 1910), para construção de águas-furtadas, novas cozinhas, bow - windows nas fachadas laterais, garagem e portão único de ferro substituindo os dois anteriores (25 de Abril de 1917) para construir chaminé (10 de Fevereiro de 1925).

A concepção e construção destes edifícios foram influenciados pelo cliente que visava economizar e edificar construções sólidas e funcionais que projectassem uma imagem em programas sóbrios, pragmáticos, cómodos - sistematizações de desenho. Habitações unifamiliares tradicionais, com fachadas de 6m sobre a rua, com três acessos independentes, formada por volume base paralelepipédico a que se associava um outro mais pequeno, localizado no logradouro e destinado a conter a cozinha. Nos seus dispositivos espaciais lêem-se a estrutura e dimensão familiares. No primeiro piso, um espaço de sociabilidade voltado para a fachada principal, um escritório ou sala e, separada, por antecâmara e escadas, do conjunto sala de jantar / cozinha, espaços de intimidade familiar situados nas traseiras e longe dos olhares estranhos. No segundo piso localizam-se os quartos e nas águas-furtadas as dependências dos empregados e as arrecadações. Os vários projectos e alterações introduzidas, em 1917, respeitaram, globalmente, os valores funcionais e a organização dos edifícios bem como a ocupação do lote. Este último projecto constituiu um momento de transformação significativa dos edifícios mas, mais marcante foi a alteração da organização do espaço exterior, preterindo a anterior solução de logradouros voltados de costas, unindo-os num espaço único e simétrico, no centro do qual foi construída uma garagem. Esta situação implicou uma mudança de vivências e vizinhanças próximas - convívios forçados, numa nova linguagem e dispositivos espaciais, numa relação mais aberta com o exterior.

Exteriormente, fachadas forradas de azulejos monócromos, com cornijas, platibandas e sacadas de bom granito lavrado, grades das varandas de ferro forjado ou fundido harmonizam-se com muitos outras edificações da rua e simbolizam o programa construtivo standard da cidade.


[1. SEDE]
RUA D. HUGO, 5-7








Projecto de Arquitectura
Maria Helena Rente
José Carlos Portugal
Tiago Falcão (Concurso e Anteprojecto)


Escultura no Pátio
Alberto Carneiro


Conservação do Espólio Arqueológico
Manuel Luís Real
Maria Isabel Pinto Osório


Concurso e Projectos
1990/1991

Construção
Junho de 1992/ Junho de 1993



[2. ESPAÇO FORMAÇÃO]
RUA DA RESTAURAÇÃO, 477 - 1º




Edificio




Interior



[3. FUTURAS INSTALAÇÕES]
RUA ÁLVARES CABRAL, 136-150



Rua Álvares Cabral




Rua Álvares Cabral




Acesso ao Pátio




Pátio interior




Garagem no pátio