O Diário Económico preparou um caderno especial dedicado à Concreta 2009, com destaque para o congresso 'Reabilitar.Habitar'. Nesse âmbito, Teresa Novais, Presidente do Conselho Directivo Regional do Norte da OA, respondeu a 3 questões sobre o tema do Congresso:
Do ponto de vista da arquitectura, quais são os principais desafios que se colocam num projecto de reabilitação?
Os principais desafios dos projectos de reabilitação são transversais a toda a toda a encomenda. A elaboração de projectos de arquitectura tornou-se numa actividade mais complexa, devido não só à regulamentação cada vez mais exigente (segurança, eficiência energética, acessibilidade, entre outros), como devido à pressão que continuamente se exerce sobre as equipas projectistas de conceberem projectos cada vez mais condicionados no tempo da sua execução e de dotação financeira mais cada vez mais restrita para toda a operação. Esta situação corrente no exercício da profissão, quase asfixiante, torna-se particularmente grave quando aplicada aos projectos de reabilitação urbana e do património.
A reabilitação necessita que os seus agentes (políticos, promotores e proprietários, entre outros), consciencializem o facto que a antecipação, programação e avaliação dedicada para cada caso de intervenção é determinante nas mais-valias a atingir do ponto de vista patrimonial, social e económico. Esta consciencialização é pois valorizar o projecto enquanto conjunto de elementos que integram saberes, estudos e propostas diversos, realizado por equipas pluridisciplinares, que se concertam para um objectivo comum: propiciar novas e boas vidas no edificado e/ou espaço intervencionado, aceitando o desafio de preservar a identidade do existente e, simultaneamente, responder a padrões de conforto cada vez mais exigentes.
Neste sentido, os arquitectos congratulam-se com a urgência da reabilitação, um dos temas desde de sempre acarinhado por eles e que está hoje finalmente presente em todos os discursos da nossa sociedade, mas continuam a reivindicar que os actores da encomenda tenham consciência da especificidade da reabilitação.
Que factores é fundamental ter em conta na altura da elaboração de um projecto de reabilitação de um edifício?
Para o sucesso de um projecto de reabilitação, é necessário que a equipa projectista tenha acesso a uma série de estudos preliminares, tais como levantamentos arquitectónicos, diagnósticos do estado de conservação do construído, quer a nível estrutural quer a nível de acabamentos, e das infra-estruturas existentes, estudos históricos ou arqueológicos, quando necessários. Mais uma vez falamos da necessidade de tempo para a ponderação e avaliação do impacto que estes estudos podem ter na definição da estratégia do projecto. Aliás, estes diagnósticos e estudos, são necessários decorrerem a muitas das vezes, antes e durante o desenvolvimento da obra de reabilitação, tornando todo o processo, da programação ao projecto, mais dinâmico que uma obra de raíz. É igualmente recomendável trazer para o terreno do projecto construtores vocacionados ou com vontade de se envolverem na área da reabilitação, ouvir as sua experiências e absorver os seu conhecimentos.
Quer isto dizer que o processo de Reabilitação, sendo mais complexo e delicado exige um arquitecto especialista? Claro que não!
Hoje, na concretização de qualquer acção projectual , a multidisciplinaridade é não só desejada como a sua existência confere confiança aos resultados alcançados.
Expectavelmente, no entanto, o conhecimento especializado origina a segmentação do conhecimento e conduz à incapacidade da acção decisória, acrescida da complexidade crescente de cada nova situação. Neste sentido, o arquitecto-criador dá lugar ao negociador/coordenador. Hoje os criativos nas mais diversas áreas são aglutinadores de informação diversa que, pertinentemente e de modo singular, processam a reintegração da mesma na solução vocacionada para situação especifica, que se quer ver resolvida, com o reconhecimento, ainda que por vezes à posteriori, de todos os intervenientes. Deste modo afirmamos que o arquitecto não precisa de ser especialista: precisa é de trabalhar com equipas especializadas e saber assumir também o seu papel de gestor de condicionantes e especificidades, e encontrar sempre o seu espaço de criatividade ética.
A sustentabilidade dos edifícios está cada vez mais na ordem do dia. Que tipo de dificuldades/desafios coloca a reabilitação urbana a este nível?
Às características tipológicas do edificado existente, concebidas em função de padrões e hábitos de vida da época, transformações sucessivas produziram novos modos de habitar e de organização do trabalho, muitas vezes radicalmente diferente das originais, obrigando a profundas alterações na compartimentação dos edifícios a reabilitar, pondo por vezes em questão o próprio sentido de tais operações, mas que podem e devem ser mediadas pelo papel clarificador do arquitecto na interpretação das características do existente face às novas necessidades de programa.
Por outro lado novos padrões de conforto e habitabilidade, nomeadamente a nível de isolamento térmico e de performance de infraestruturas, sobrepõem-se às características construtivas dos edifícios existentes, obrigando a um esforço projectual acrescido de modo a garantir a fidelidade da expressão arquitectónica original, sem a qual se deturpa e dilui a memória e identidade invocadas.
A lógica de sustentabilidade nos centros históricos, obriga a repensar a ineficiência dos edifícios. O seu carácter patrimonial, a sua pré-existência, obrigam-nos a cuidados especiais, e obrigam-nos sobretudo a proceder de modo distinto de um edifício novo.
Nos bons exemplos existentes tudo está desenhado: não podemos mudar a orientação, na maior parte das situações, nem sequer os revestimentos. O que é que podemos fazer para proporcionar as mesmas condições de conforto de edifícios novos? É necessário compreender o que é que mudou na componente energética dos edifícios desde o sec XIX, e onde é que podemos actuar: na sua envolvente? Na eficiência dos sistemas?
É na resposta a este desafio que a OASRN está empenhada, através da construção das suas novas instalações no Porto Norte 41º. Centro de Arquitectura, Criatividade e Sustentabilidade.
Apesar de já totalmente licenciado, a direcção da OASRN tomou a iniciativa de rever o projecto no âmbito das questões da sustentabilidade e da eficiência energética, com o objectivo de este servir como Projecto Demonstrador, capaz não apenas de obter uma performance compatível com a nova legislação, mas sobretudo servir também como case study de reflexão sobre a complexidade da temática da reabilitação junto dos seus membros e sociedade civil sobre a sustentabilidade na vertente da arquitectura tais como, eficiência energética no âmbito dos edifícios existentes, uso racional, aproveitamento e reciclagem da água, aplicação de materiais e tecnologias eco-eficientes e re-utilização dos elementos existentes e Sistemas de certificação ambiental.
Da colaboração com outros parceiros pretendemos estudar benefícios que possam reverter para o projecto e para disponibilização e sensibilização da comunidade de projectistas. No projecto das novas instalações, podemos testar 3 situações distintas: Restauro (onde não é possível alterar os revestimentos nem pelo exterior, nem pelo interior) renovação (onde pelo estado de degradação atingido no interior, é possível estudar a alteração dos revestimentos interiores) e ampliação com construção nova (onde é possível pensar soluções completas).
Neste âmbito, e dos compromissos com sustentabilidade e eficiência energética, a OASRN estabeleceu recentemente protocolos com o LiderA (um sistema voluntário para a avaliação e reconhecimento da construção sustentável) pretendendo-se avaliar a sustentabilidade do projecto no estado actual (ante-projecto) e a possibilidade de melhorá-la antes de se passar às fases seguintes (projecto de execução, construção e fase de uso), e com a Edifícios Saudáveis, para submeter o ante-projecto a um estudo de optimização energética.
Pretende-se que o estudo assuma um carácter exploratório e demonstrativo das possibilidades actualmente disponíveis no mercado a que as equipes de projecto (arquitectura e especialidades) podem recorrer quando estejam a intervir no centro urbano das cidades (histórico e não só), tanto ao nível da envolvente como dos sistemas de climatização.
Pretende-se ainda com este estudo, caso se justifique, propor linhas gerais de orientação para tipologias de serviços e habitação semelhantes.
O artigo com excertos destas 3 respostas foi publicadona edição do Diário Económico de 16 de Outubro de 2009 e está disponível para consulta aqui em formato .PDF
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