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INÚTIL PAISAGEM
NUNO GRANDE, Pelouro da Cultura

MAI.2002

A queda e a (re)construção da Ponte Hintze Ribeiro, em Castelo de Paiva, evidenciam questões que importa salientar no âmbito do nosso território. Na verdade, aquele desastre veio a revelar o que aparentemente já sabíamos – Portugal é um país de distintos estratos (infra)estruturais que não se articulam, não se conjugam, não se compreendem, apenas coexistem indiferentes na paisagem como factos arqueológicos do engenho humano.

O território e a sua estruturação foram sempre um problema da tecnocracia estatal. Na nossa História recente, quando o Estado se revelava empreendedor e ideologicamente “musculado”, o país infraestruturava-se; quando o mesmo Estado perdia fôlego, as frentes de trabalho interrompiam-se, as infraestruturas degradavam-se e o tempo ficava preso até que novas dinâmicas surgissem, impondo e sobrepondo mais um estrato reorganizador, quase sempre em desarticulação com os anteriores.

O Estado Novo, preocupado com a Urbanização das cidades, esqueceu progressivamente o “hinterland” que fora sulcado pelo caminho-de-ferro do Fontismo. O Marcelismo intensificou esse corte paisagístico lançando grandes Circulares Urbanas. O Cavaquismo simbolizou, no período democrático, o salto de escala territorial, apostando nas ligações viárias das Áreas Metropolitanas ao centro da Europa. Entre as linhas férreas de Oitocentos e as auto-estradas do fim de Novecentos, as nossas infraestruturas perderam progressivamente a sua relação com o suporte físico; ou seja, parecem ter descolado de uma inútil paisagem.

Quando, em Março de 2001, a precária passagem de Entre-os-Rios se desmoronou nas águas do Douro, e logo se anunciaram novas e mais eficientes pontes ou viadutos para a substituírem, essa descolagem tornou-se gritante. Dois tempos de um mesmo país, dois estratos de um mesmo lugar confrontaram-se repentinamente, e então percebemos como, também aqui, nos temos esquecido desse território interior e também anterior. Esperamos por agora, atentamente, a chegada do TGV.


Fonte/Autoria da Imagem: CEFA/FCG, Políticas Urbanas, 2002

 
 



  TRÊS POSSÍVEIS CONSENSOS
JORGE FIGUEIRA, Pelouro da Cultura





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