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057

O ALJUBE POR DENTRO
INÊS NADAIS

06.ABR.03
 

Ordem dos Arquitectos fez visita guiada ao Comando Metropolitano da PSP no âmbito do ciclo Obra Aberta

Como se transforma um convento maltratado pelo uso num comando metropolitano da Policia de Segurança Pública (PSP) com "pedigree" arquitectónico e vista para o rio Douro? Foi sobretudo para responder a essa pergunta que a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos convidou ontem Vitor Mestre, responsável pelo projecto de reabilitação do Aljube (antigo Convento de Santa Clara), para uma viagem ao interior daquele edifício. Segundo capitulo do programa Obra Aberta - um ciclo de visitas guiadas que percorrerá edifícios emblemáticos do Norte do pais -, a iniciativa de ontem funcionou simultaneamente como aula de arquitectura informal e livre- trânsito para um território de acesso reservado.
Ao longo de uma visita que se prolongou por duas horas e percorreu minuciosamente os vários aposentos do Aljube, cerca de três dezenas de pessoas (anfitrião incluído, já que o superintendente Gomes Pereira fez qustão de acompanhar o percurso) puderam apreciar "in loco" como a rotina da PSP se instalou naquele espaço invulgar. Ao arquitecto Vitor Mestre coube explicar passo a passo o processo de reconversão do convento e chamar a atenção para os detalhes mais singulares do edifício. Fazendo uma síntese da história do edifício, Vitor Mestre começou por explicar as circunstâncias da sua intervenção, encomendada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais em 1997. "Quando aqui vim pela primeira vez, o edifício estava em colapso e continuava a funcionar como esquadra em condições quase infra-humanas", lembrou ao PÚBLICO. Fazer de um edifício com uma série de problemas estruturais - camaratas "seguras por prumos de madeira", muitas adulterações à traça original do convento e visitas regulares da chuva -aquele que será provavelmente o mais bonito quartel-general da PSP de todo o país foi tarefa para três anos.
O projecto de reconversão, foi esclarecendo Vitor MeStre, passou sobretudo pela recuperação da lógica de claustro que regia o convento primitivo, mais tarde convertido em estabelecimento prisional. Mas o facto de estar em causa uma espécie de edifício dois-em-um (um edifício do século XIX encostado ao convento do século XIV) complicou a reabilitação: "Não se percebia leitura dos dois edificios, a maneira como interagiam. A ligação fazia-se por um corredor acanhado", lembra o arquitecto, apontando o átrio amplo que entretanto surgiu em seu lugar.
O dilema entre fazer "pastiche" do edificio original ou assumir as marcas de uma intervenção "a posteriori" não se chegou sequer a colocar: Vítor Mestre achou que "o edificio já tinha suficiente arquitecto" e preferiu refazer a estrutura de deambulatório, mas não tentou camuflar as marcas da sua intervenção. Onde é velho respeitou-se a traça original (mantiveram-se as portas góticas, o claustro de recorte maneirista e até algumas gárgulas), onde é novo vê-se que é novo. "Respeitámos os materiais primitivos, como o granito. Mas os caixilhos, por exemplo, são em aço para não esconder que houve aqui uma intervenção., adiantou. A ideia foi que "o convento se sobrepusesse sempre" - e que a atmosfera de serenidade assim recriada contagiasse os novos inquilinos. "Estamos habituados a ver a polícia sempre muito mal instalada, em situação de precariedade total", lamentou o arquitecto. Gomes Pereira, o principal inquilino da "esquadra de luxo", não podia estar mais de acordo.


in jornal Público

 
 


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