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QUEM DISSE QUE UM PARQUE INDUSTRIAL TEM DE SER FEIO, MUITO SUJO E RUIDOSO?
ABEL COENTRÃO

11.MAI.03
 

Braga entrou no roteiro do ciclo de visitas com que a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos (OA) tem vindo a assinalar o Ano Nacional de Arquitectura. Mas não a cidade - onde a boa arquitectura "está escondida" num território "muito pressionado", como explicou André Tavares, da OA. Num concelho com uma forte componente industrial, os organizadores seleccionaram um exemplo de preocupações arquitectónicas num espaço onde elas raramente existem: um estaleiro da construção civil, no caso o centro de produção da Domingos da Silva Teixeira, SGPS (DST), desenhado, até ao pormenor do mobiliário, por José Carvalho Araújo. Uma obra que é a prova, ainda inacabada, de que os parques industriais não têm forçosamente que ser feios, sujos e muito ruidosos.
Mas são. E a prova está em Palmeira, no mesmo parque onde a DST decidiu concentrar todos os seus serviços. Quem vem no caminho que liga A EN 101 a esta zona industrial dificilmente acreditará que escondido ao fundo de uma avenida de banais pavilhões, de múltiplas cores e feitios, se erga um complexo onde a uniformidade de linhas e a adaptação dos edifícios às várias cotas da encosta onde foram implantados se conjugam num acto de não agressão a uma paisagem onde até o verde (!?) tem espaço. Mas, por exemplo, os frequentadores do bloco administrativo já se habituaram a esperar por uma reunião com os administradores sentados ao lado de estátuas de Alberto Vieira, as mesmas que foram instaladas pensativas (Adão e Eva perante a Maçã) num "open space" que apesar de subterrâneo ganha na sua largueza de metros e nas enormes clarabóias uma luz que convida à boa disposição.
É claro que poucos dos mais de 500 trabalhadores das várias empresas do Grupo DS T experimentaram o prazer que sentirá o administrador José Teixeira no seu "T0" decorado com reproduções de fotografias de Laura Torrado - que já estiveram expostas noutras paredes desenhadas por Carvalho Araújo, as da Galeria Mário Sequeira, também em Braga. Mas mesmo esses, garante outro administrador, Hernâni Teixeira, "são mais felizes", e "têm gosto de dizer que trabalham nesta empresa" que, explica, ganhou fama no meio ao dar-se a preocupações arquitectónicas raras em edifícios que têm como função acolher serralharias ou carpintarias, e que aqui, por exemplo, ganham alguma beleza no contraste entre a chapa e uma malha de arame segura um monte de pedra alinhado, que serve de muro.
O conceito foi exportado para o centro de negócios do Parque Industrial de Adaúfe, também projectado por Carvalho Araújo e que está a ser construído pela DST. E a verdade, garantem arquitectos e empresários, é que à excepção do mobiliário, todo ele desenhado pelo arquitecto, essa preocupação com a estética nem custou muito mais dinheiro à firma. Betão, chapa metálica, um reboco cinzento e uma imaginação a atirar para as linhas rectas e para a total funcionalidade de espaços, bastaram. E até o dono da obra colaborou, ao plantar a "avenida das oliveiras" ou ao transformar uma rotunda em instalação artística com esguios blocos de granito e uma vara de metal enferrujada no centro. Nem o restaurante do complexo de seis edifícios escapou a esta "obsessão", visível nos quadros espalhados pelas paredes. A lembrar que, por aqui, longe vão os tempos do trolha a aquecer a marmita à fogueira. Como uma surpresa nuca vem só, para a semana a Ordem prossegue este ciclo com nova visita a um lugar onde não se esperaria ver boa arquitectura: Picote, a aldeia construída junto à barragem, em Miranda do Douro.

Uma paixão pela arte

O grupo DST é um dos candidatos aos contratos de reconstrução do Iraque. A eventual participação da empresa no processo, que atraiu outras firmas conhecidas de Braga e está a ser trabalhada com o apoio da Associação Industrial do Minho só será confirmada no início da próxima semana, mas a sua inclusão na restrita lista de propostas é significativa da dimensão que o grupo atingiu ao longo da última década. O crescimento é visível na expansão do centro de produção do grupo, e tem sido acompanhado por um trabalho de associação das suas várias marcas ao mundo da Arte. O resultado mais conhecido dessa estratégia - que em termos de marketing ajuda a posicionar os seus produtos imobiliários num segmento médio-superior - foi a criação do Grande Prémio de Literatura ITF, que ao longo dos últimos anos vem ganhando notoriedade, e o apoio desta empresa a vários eventos culturais na cidade de Braga. Mas não se fica por aqui. No momento em que se prepara para produzir e comercializar uma linha de mobiliário urbano com a assinatura de Carvalho Araújo, o grupo entregou na semana passada a Fernando Guerra e Eduardo Fernandes os primeiros prémios DST/Jornal de arquitectos, uma iniciativa em cooperação com a revista dirigida por Manuel Graça Dias que anualmente vai premiar os melhores texto e dossiê fotográfico sobre arquitectura. E em Julho, revelou José Teixeira, no coração da pedreira da empresa vai ter lugar um simpósio sobre escultura em pedra e ferro, evento organizado em colaboração com o artista José Rodrigues e a Cooperativa Árvore, especialmente dedicada a um público escolar.


in jornal Público

 
 


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