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VIAGEM PELA ARQUITECTURA DE UMA CIDADE DISFORME CELESTE PEREIRA
08.JUN.03 |
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Um olhar invulgar sobre o urbanismo de Vila Real
Cidade transmontana esconde obras de referência
É incontornável. Falar de urbanismo em Vila Real é falar de liberalismo construtivo, dispersão territorial, confronto de escalas e subalternização do espaço público. A explosão construtiva que se iniciou nos anos 70 e se prolongou até aos dias de hoje tornou a cidade transmontana disforme e agressiva.
Vila Real é uma cidade onde se vive um mau ambiente urbano, uma cidade onde os arquitectos não desempenharam um papel decisivo. Mas é também um cidade de contrastes. Paredes-meias com os "disparates" urbanísticos, convivem algumas obras de arquitectura de referência que colocam esta cidade no mapa da arquitectura nacional. No seio de uma urbe onde o impacte da arquitectura parece passar despercebido, escondem-se formas construtivas qualificadas, quer em edifícios institucionais, quer em habitações unifamiliares e colectivas. São construções que denunciam em comum a importância da arquitectura na transformação de espaços.
Recentemente, para divulgar o interesse da arquitectura junto do público, a Ordem dos Arquitectos realizou uma visita guiada por algumas dessas obras de referência na cidade transmontana. Integrado nas comemorações do Ano Nacional da Arquitectura, este circuito mostrou arquitecturas singulares e o modo como a arquitectura constrói a imagem da cidade. Diz a Ordem dos Arquitectos que a escolha das obras, "ecléctica, não privilegiou um olhar disciplinar sistematizado", permitiu antes visitar exemplos mais escondidos do olhar do público e conhecer obras com "particular interesse" no contexto português.
Da visita saiu enfatizado o papel do gabinete Arquitectos do Pioledo na cidade transmontana. O vila realense António Belém Lima, líder deste grupo fundado nos anos 80, foi, aliás, responsável pela condução do circuito pelas obras de arquitectura.
Ao falar do urbanismo de Vila Real, Belém Lima não usa lugares-comuns- "mamarrachos" ou "cidade de betão"-e recusa-se a ter uma "visão catastrófica" sobre esta . questão. A sua avaliação sobre a cidade, explica, é mais "realista": "A cidade que se está a fazer é também a cidade dos políticos, dos cidadãos, da economia débil que temos". "Nesta cidade, sei bem que há coisas mal feitas, mas possivelmente o balanço é proporcional à nossa cultura material", conclui.
O PÚBLICO acompanhou a visita liderada por este arquitecto e deixa aqui a proposta de um olhar invulgar sobre o urbanismo de Vila Real:
1. CENTRO DE ACOLHIMENTO TEMPORÁRIO A GRANDES DEPENDENTES (MATEUS)
Arquitecto: Ricardo Santelmo. Arquitectos do Pioledo
Na organização estrutural das cidades vive-se num tempo em que os serviços públicos se dispersam por lugares de visibilidade e/ou acessibilidade duvidosas. Subestima-se o papel dos serviços públicos como estruturantes. E, no município de Vila Real, os exemplos sucedem-se: vejam-se as localizações dos serviços de Finanças, a Conservatória do Registo Civil, a Conservatória do Registo Predial e os serviços do IFADAP. entre outros. É sobretudo pelo contraste com estes serviços que este equipamento de uso social, situado num local não central, vinca a sua "vocação de referência urbana", como sublinhou António Belém Lima.
2. COOPERATIVA HABIREAL (MATEUS)
Arquitecto: António Belém Lima. Arquitectos do Pioledo
É um pequeno bairro que actualiza o sentido de cidade: tem ruas onde crescem árvores, praças e percursos de peões. É um bairro pensado para 350 habitantes, que prova que também é possível fazer cidade com orçamentos limitados. As casas têm pé-direito triplo e estão repletas de transparências que permitem uma relação surpreendente dos andares entre si.
3. CASA G
Arquitectos: Michele Cannatà e Fátima Fernandes
Situados em dois lotes do subúrbio da cidade, estes dois projectos de habitações unifamiliares têm a mesma génese e matriz. Diferenciam-se e complementam-se entre si. São dois projectos de orçamentos ligeiramente mais elevados do que o das habitações da cooperativa Habirreal, mas que denunciam a comum preocupação com o conforto interior, mas também, e em especial, com o confronto público/privado.
4. EDIFíCIO ESCRITÓRIO AROUITECTOS DO PIOLEDO
Arquitecto: Carlos Santelmo
Um edifício-escritório que convive com um bairro eminentemente residencial. Uma convivência que traz vida ao tecido urbano da cidade e oferece a calma e tranquilidade ideais para um local de trabalho.
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in jornal Público
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