Sílvia Benedito
QUADRÍCULA EMOCIONAL
Um Urbanismo Híbrido entre Natureza e Arquitectura nas Cidades Atlânticas Portuguesas do Séc. XVI
> blogue com o registo do diário de viagem
... a essa atitude humilde de cooperação com a Natureza e aceitação quase fatalista dos seus imperativos, contrapõem-se o desejo de a dominar.
In, Arquitectura Popular Portuguesa, Vol. 1, Introdução, p. XIX
O Desenho Urbano Português tem uma história para contar.
Dos variados modelos desenvolvidos por diversas culturas em construir cidades, tais como a Espanhola, Francesa, Inglesa ou Holandesa, a Escola do Desenho Urbano Português tem uma particular distinção aos demais pela forma como Natureza e Arquitectura se articularam na produção de forma urbana. Esta particularidade torna-se urgente realçar no contexto actual em que Natureza assume cada vez mais um papel essencial no entendimento do território e em que Arquitectura e Espaços Urbanos incorporam um papel representativo na emancipação de culturas. Natureza e Arquitectura articulam-se na produção de um modelo híbrido que, simultaneamente, opera inteligentemente na ocupação estratégica do espaço e do tempo: sistemas de regulação territorial, tais como quadrículas ou infra-estruturas, cooperam com o território na medida que tiram partido das suas vicissitudes topográficas e hidrológicas para fins de defesa, de economia e de raíz programática enquanto que elementos polarizadores, distintos pela sua função, tipologia e/ou singularidade formal, pontuam o território para ancorar futuro crescimento. Assim é a história de um urbanismo híbrido e e de um urbanismo único que faz a ponte entre Natureza, Arquitectura e o Indivíduo na convicção de que a cidade não é um plano abstracto mas sim um campo emocional feito de dinâmicas, pulsares e personalidades únicas. Mais do que uma manifestação em desfavor a contemporâneas visões genéricas no entendimento do território e culturas esta proposta busca as matrizes genéticas do desenvolvimento deste modelo híbrido entre Natureza e Arquitectura, que se constitui identitário da nossa cultura em construír urbanidades, e avalia potenciais evoluções deste modelo em relação às necessidades funcionais, ecológicas e espaciais dos dias de hoje.
De âmbito multi-disciplinar a presente proposta para o Prémio Fernando Távora irá focar-se no estudo e visita das cidades portuguesas do Atlântico do Século XVI, mais precisamente nas cidades da costa do Brasil, Ilhas da Madeira e Açores onde os sistemas de fundação não se basearam nem por tratadísticas clássicas, nem por poderes centralizadores e nem por maiores movimentos internacionais mas sim por uma inteligência enraizada na cultura urbana portuguesa em articular Natureza com Arquitectura como elementos estruturantes da forma urbana: Natal (Rio Grande do Norte), Olinda (Pernambuco), Salvador (Baía), Vitória (Espírito Santo), Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), Santos (São Paulo), Funchal (Ilha da Madeira), Ponta Delgada (Ilha dos Açores) são as cidades que esta hipótese para um urbanismo único e distinto vai explorar. A proposta está assim articulada em três partes: a primeira parte respeita à análise e confrontação destes princípios de síntese com a realidade in loco; a segunda parte respeita à avaliação das particularidades e variações que cada cidade possa apresentar no âmbito deste modelo; e a terceira parte é a re-conceptualização desta forma de actuação no território para potenciais adaptações em relação ao presente discurso acerca de cidades.
Nas cidades actuais a escala de interdependência entre políticas e economias, a omnipresente tecnologia e acessível informação, a fácil mobilidade e a aparente dissolução de fronteiras entre países promovido pelo turismo internacional, a crescente emigração e o entendimento do ambiente à larga escala planetária têm vindo a impor novas disciplinas, a revelar identidades e a manifestar modos de vida emergentes. Tal como a cultura se diversifica e se multiplica assim é fundamental entendermos como a cidade e a qualidade de vida das sociedades se articulam nesta nova realidade em que temas tais como ecologia, geografia e cultura são cada vez mais pertinentes. Se no início da década de 50 o localismo como ideologia e atitude eram defendidos no CIAM contra o anónimo produzido pela cidade funcional; se hoje muitos arquitectos e urbanistas argumentam pelo específico versus o genérico na propagação de modelos indiferentes aos contextos culturais (físicos e imateriais) a tarefa que importa atingir é a de encontrar precedentes de raíz específica que legitimem um urbanismo que faça a ponte entre a cultura global e sistemas locais, entre as dinâmicas do território e as dinâmicas dos desejos de quem o habita. A emergência de encontrar modos alternativos de entendimento do território é assim essencial. Como James Corner, um dos criadores do termo Landscape Urbanism, argumenta: In the opening years of the twenty-first century, that seemingly old fashioned term landscape has curiously come back into vogue. The reappearance of landscape in the larger cultural imagination is due, in part, to the remarkable rise of environmentalism and a global ecological awareness, to the growth of tourism and the associated needs of regions to retain a sense of unique identity
and its capacity to theorize sites, territories, ecosystems, networks, and, infrastructures. In particular, thematics of organization, dynamic interaction, ecology, and technique point to a looser, emergent urbanism, more akin to the real complexity of cities and offering an alternative to the rigid mechanisms of centralist planning. (In, The Landscape Reader, p. 037, 2006 Princeton Architectural Press)
Esta proposta re-assume assim o papel fundamental que o desenho urbano possui em reactivar economias e culturas, re-estabelece a importância do específico versus o genérico e destaca a história do desenho urbano português como um urbanismo híbrido e, por isso, potencial modelo sustentável pela forma como, emocionalmente, Natureza e Arquitectura se articulam na construção espacial do território.
Portanto, a pergunta base que se colocou na formulação desta proposta foi: como se poderão desenhar e construir cidades em que economias e culturas se associam na procura de um modelo de intervenção urbano de valorização ao que é único ao território nomeadamente a sua geografia, ecologia e dinâmicas individuais ? A história do desenho urbano português do Século XVI, com o seu particular modelo de articulação entre Natureza e Arquitectura, pode representar um precedente válido para esta questão que importa ser testado e provado através de experiências reais de confronto in loco.
Diário digital de Viagem 2ª edição Prémio Fernando Távora Sílvia Benedito lança em formato blogue, diário de viagem
Sílvia Benedito, vencedora da 2ª edição do Prémio Fernando Távora, com a proposta Quadrícula Emocional Um Urbanismo Híbrido entre Natureza e Arquitectura nas cidades Atlânticas Portuguesas do Séc. XVI, lança um blogue dedicado ao percurso de viagem que passará pelas cidades da costa do Brasil (Natal, Olinda, Salvador, Vitória, Rio de Janeiro, Santos), Ilhas da Madeira (Funchal) e Açores (Ponta Delgada).

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