OASRN

047

O DIREITO DOS ARQUITECTOS E OS DIREITOS DOS OUTROS
SANTANA CASTILHO

28.JUN.03

"Em pouco tempo, é a segunda vez que me refiro a iniciativas da Ordem dos Arquitectos. Bom sinal: a Ordem está activa e a relatividade, como teoria, funciona, mostrando que os fenómenos se apresentam com diferentes matizes, consoante o prisma sob o qual sejam olhados. Esse o meu exercício de hoje, o de trazer à colação outros aportes, a acrescentar à posição da Ordem dos Arquitectos sobre o denominado "Direito à Arquitectura".

1. O problema - A arquitectura, entendida como arte de planear e dirigir construções de edifícios, está entregue, no ordenamento jurídico vigente, a cidadãos com formações académicas diferentes. O crescimento exponencial de ofertas de formação, a identificação de novos e graves problemas sociais e o estabelecimento de conexões entre esses problemas e más soluções arquitectónicas adoptadas, entre outros, são fenómenos que não encontraram adequação atempada do quadro legal que protege (que devia proteger) os interesses sociais.

É fácil mesmo, por patente, verificar o anacronismo que resulta do cruzamento de disposições legais antagónicas sobre a matéria. Liderada pela Ordem dos Arquitectos, foi apresentada à Assembleia da República uma petição de que resultou uma recomendação ao Governo que, a ser seguida, afastará de um exercício profissional legal milhares de técnicos, não arquitectos.

2. O direito dos outros - Socorro-me de vários documentos entre os quais o "Breve Historial", assinado por Helena Roseta, a petição apresentada à Assembleia da República, o projecto de diploma para revogação do DL 73/73, que singular e providencialmente a acompanhou e de que é autor Freitas do Amaral, curiosa e concomitantemente um dos primeiros subscritores da petição, e o Projecto de Deliberação nº 17/IX da Assembleia da República, que viria a ser aprovado por unanimidade e de que é primeira subscritora Helena Roseta, curiosa e concomitantemente deputada, autora do "Breve Historial", arquitecta e presidente da Ordem dos Arquitectos, para fundamentar alguns comentários, que todos (e são tantos) o espaço não permite. Assim:

a) Sem dificuldade, aceito que o exercício da arquitectura deva passar a ser uma exclusividade dos que tenham como habilitação mínima a respectiva licenciatura. Para tal contribuem argumentos de natureza académica, social e legal, entre outros. Mas a harmonização da lei portuguesa às disposições comunitárias e a compatibilização das disposições legais portuguesas naquilo que têm de contraditório e obsoleto não justificam o atropelo dos direitos adquiridos dos outros. Freitas do Amaral conclui, depois de longas e doutas considerações, explanadas no extenso texto supracitado, que "não existem quaisquer direitos adquiridos a tutelar".

Os nove deputados subscritores do Projecto de Deliberação e por arrastamento todos os que o votaram por unanimidade, subscrevem a tese de Freitas e acrescentam-lhe, ainda, a inexistência de "expectativas legítimas a proteger". Deixemos a complexidade do Direito, que põe metade dum colectivo de juízes a dizer sim e a outra metade e mais um a dizer não. Esqueçamos a promiscuidade dos meandros da política, que troca queijos por votos. Centremo-nos, tão-só, na evidência e no bom senso: o famigerado DL 73/73, bem ou mal, consignou, de direito, a possibilidade de exercer arquitectura, com fortes limitações, note-se, aos titulares de várias formações académicas diferentes da licenciatura em arquitectura; de facto, há pelo menos 30 anos que um conjunto desses diferentes profissionais, bem ou mal, assina projectos de arquitectura, de forma legalmente protegida; estima-se que o primeiro universo se aproxime dos 50 mil cidadãos e que o segundo ronde uns 30 por cento do primeiro, isto é, mais do que os 11 mil arquitectos inscritos na Ordem; o carácter de transitoriedade do DL 73/73, repetidamente insinuado, respeita apenas a um dos seus artigos, que nada tem que ver com os profissionais em análise; outrossim, é bom não perder de vista que disposições legais diversas e recentes (governos de Mário Soares, Cavaco Silva e António Guterres) retomaram o problema, bem ou mal, e deram achegas, bem ou mal, à aceitação do exercício da arquitectura, bem ou mal, por outros, que não arquitectos. Se tudo isto não fez criar direitos nem expectativas, o Direito é uma batata.

b) Espero que o ministro da Educação esteja mais atento que os deputados ao evoluir da situação. Os estudantes dos cursos que formam os profissionais agora alvo das medidas propostas são gente a quem se criaram expectativas.

c) No dizer de Catherine Paradeise, eminente professora de Sociologia, uma profissão é uma ocupação que conseguiu reunir duas características-chave: a necessidade de obtenção de uma licença para a exercer e a posse de um mandato legal, moral e intelectual para a impor. Pelo respeito que os arquitectos me merecem, expresso um voto para que a sua Ordem, que outorga a licença e possui inequívoco mandato legal e intelectual, não descure a vertente moral do mesmo. São demasiados os indícios menos auspiciosos."




 
 


99
 O 73/73 É UM ENGANO!
mar

98
 POR UM FUTURO MELHOR!
P.Cunha

93
 ASSINATURAS
Diogo Manuel Monteiro das Neves

88
 DEIXEM-ME VOTAR, POR FAVOR!
Pedro Marques de Figueiredo, Arquitecto.

100
 POR UM FUTURO MELHOR II
Rita Amaral

097
 DAQUI A POUCO, DEIXO A ARQUITECTURA!
Rui Cação

094
 SÓ PODE SER DESTA !!!!!
Francisco Rey

090
 PEDITÓRIO DE ASSINATURAS PARA QUÊ?
Jorge Garcia Pereira

086
 O RECURSO
Fernando Gabriel

085
 ARQUITECTO!!! OH, TRISTE PAIXÃO!!!
P. O.

084
 E O NOSSO FUTURO?
pc

079
 RAZÕES
J.R.

077
 DESABAFO!
RUI REGO e CARLOS MARQUES

071
 OS ARQUITECTOS TÊM DIREITOS?
ANTÓNIO JORGE BRAGA

070
 ARQUITECTOS DESVENDARAM SEGREDOS DO LABORATÓRIO DE INVESTIGAÇÃO VETERINÁRIA
ÂNGELO TEIXEIRA MARQUES

069
 ILHA DA RUA DAS ALDAS:
UMA FORTALEZA COM PEQUENAS JANELAS

INÊS NADAIS

067
 A PAIXÃO DOS ARQUITECTOS
ALEXANDRE PRAÇA
NELSON MARQUES

066
 “OBRA ABERTA” EM MATOSINHOS
EDUARDO COELHO

065
 O PALÁCIO COMO DOCUMENTO ABERTO
RITA LOPES

064
 VIAGEM PELA ARQUITECTURA DE UMA CIDADE DISFORME
CELESTE PEREIRA

063
 VILA REAL E RÉGUA “ABRIRAM-SE” AO OLHAR DOS ARQUITECTOS
CELESTE PEREIRA

062
 SIZA VIEIRA REGRESSA À CASA AVELINO DUARTE
SARA DIAS OLIVEIRA

061
 SIZA VIEIRA REGRESSA À CASA AVELINO DUARTE
NATACHA PALMA

060
 QUEM DISSE QUE UM PARQUE INDUSTRIAL TEM DE SER FEIO, MUITO SUJO E RUIDOSO?
ABEL COENTRÃO

059
 VISITA À “HABITAÇÃO PÓS-25 DE ABRIL “ NO PORTO
PAULA SIMÕES

058
 REVOLUÇÃO NÃO CHEGOU A TODOS OS BAIRROS E ILHAS
VIRGÍNIA ALVES

057
 O ALJUBE POR DENTRO
INÊS NADAIS

056
 CASTELO RODRIGO NAS VISITAS GUIADAS DO ANO NACIONAL DA ARQUITECTURA
RITA LOPES

055
 ORDEM DOS AROUITECTOS FAZ VISITAS GUIADAS
LUIS MIGUEL QUEIRÓS

054
 ORDEM DOS AROUITECTOS PROMOVE VISITAS GUIADAS
LUÍS MIGUEL QUEIRÓS

047
 O DIREITO DOS ARQUITECTOS E OS DIREITOS DOS OUTROS
SANTANA CASTILHO

045
 DISCUSSÃO COMPLETA DA DELIBERAÇÃO DA PETIÇÃO
DEBATE NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

043
 PROJECTO DE DELIBERAÇÃO N.º 17/IX
COMISSÃO DE OBRAS PÚBLICAS, TRANSPORTES E COMUNICAÇÃO

029
 ESTÁGIO DA (DES)ORDEM
PAULO MONTEIRO, Licenciado em Arquitectura

026
 BOA SEDE, MAU JUÍZO
PEDRO ABRANCHES VASCONCELOS

025
 DESTRUIR A OA PARA CONSTRUIR A SUA SEDE
JOÃO CASTRO FERREIRA

024
 PORTO COM PINTA
PEDRO SILVA

021
 ORDEM NAS TUTELAS
JORGE PINHEIRO RODRIGUES

020
 NÃO INVENTE E SEJA DO CONTINENTE
PEDRO BELO RAVARA

015
 O PAPEL DA ORDEM NOS CONCURSOS PÚBLICOS
ABAIXO ASSINADO

014
 RUA DO AMEAL, 942 | PORTO
PEDRO ABRANCHES VASCONCELOS

011
 CONCURSOS COM A ORDEM? NÃO, OBRIGADO!
IVO OLIVEIRA, PEDRO CASTELO

010
 VONTADE DE MUDANÇA
FRANCISCO SOUSA RIO

007
 D’A LOUCURA DOS ARQUITECTOS
JOÃO CASTRO FERREIRA

006
 A VERDADEIRA RUÍNA DA ARQUITECTURA
PEDRO BRANDÃO, Europan Portugal